A força da solidariedade, do respeito e da empatia com a população atingida pela enchente no Vale do Taquari se justificou mais uma vez na manhã de sábado (23), em Roca Sales. Em uma das esquinas no centro da cidade, um grupo de pessoas realiza o famoso “trabalho formiguinha”, carregando brinquedos, eletrodomésticos e móveis para o interior da Escola de Educação Infantil Primeiros Passos, que amanhecia na trágica manhã de 6 de setembro abaixo de lodo e completamente destruída pela força das águas. Em 15 dias, o espaço está prestes a ser devolvido para a comunidade, tão bonito quanto antes.

 

A iniciativa partiu de um grupo de voluntários de Sananduva, na região Nordeste do Rio Grande do Sul, a 221 quilômetros da escolinha. Movidos pela comoção das famílias prejudicadas e o desejo de resgatar a autoestima local, mais de 30 sananduvenses foram envolvidos na força-tarefa, embarcando em um micro-ônibus que partia do município perto das 03h da manhã.

 

— Queríamos vir para cá fazer alguma coisa. Foi quando ligamos para o deputado Alceu Moreira, que intermediou um contato com o prefeito Amilton (Fontana), e nos direcionou para a escolinha —, explica o coordenador de projetos da Prefeitura de Sananduva e responsável pela ação, Carlos José Picolotto, o Negui.

 

No amanhecer de 8 de setembro, ao se depararem com a escolinha, os voluntários iniciaram o trabalho de limpeza. Vassouras, esfregões e baldes eram acionados horas a fio e, ainda assim, insuficientes para devolver a beleza e as mínimas condições pedagógicas ao espaço que recebe mais de 60 crianças. Colchões e berços esmagados pela lama eram jogados para a beira da calçada, à espera do recolhimento, já que não poderiam ser reaproveitados. A cena sensibilizou Negui, que decidiu levar adiante a ideia de “adotar” o local.

 

— Podíamos não ter condições de comprar as coisas de volta, mas de mobilizar pessoas de Sananduva. Ligávamos para um, para outro, e pedíamos ajuda identificando o que era necessário. Os colaboradores pagavam diretamente ao estabelecimento comercial para que tudo fosse feito com absoluta transparência. A solidariedade foi tão grande que no sábado da tragédia já tínhamos todos os berços, os colchões e as roupas de cama conquistadas — relembra Negui.

 

A arrecadação possibilitou ainda a compra de novos mobiliários, brinquedos, materiais escolares, utensílios de cozinha, lavanderia e eletrodomésticos. As instalações elétricas foram substituídas e revitalizadas por técnicos que também se colocaram à disposição.

 

— Em nosso primeiro contato, o Carlos (Negui) disse para mim que ao menos as caminhas ele prometeria. Nós precisávamos de ajuda, mas não havia pedido nada. Com o passar do tempo, ele me ligava para dizer: ‘ó, conseguimos isso, conseguimos aquilo’. Foi quando percebi que teríamos a nossa escola de volta — reconhece a diretora Rosemari Facini Barzotto, servidora municipal há mais de 40 anos. 

 

A desesperança foi dando espaço ao espírito do recomeço. O gesto serve de exemplo para que muitas outras localidades da região possam ser igualmente abraçadas. A expectativa, segundo Rosemari, é reiniciar as aulas em até 15 dias.

 

— Para nós isso representa tudo. Desde os pais que terão a segurança de deixarem seus filhos em um local seguro enquanto trabalham às crianças, que gostam de estar aqui, têm a nossa entrega e são tratadas com muito amor e carinho — conclui a diretora.